Como brasileiras substituem produtos industrializados por caseiros

Ótima matéria publicada na Galileu sobre como os brasileiros estão substituindo produtos industrializados por caseiros, segue:

Quando tinha 12 anos, a gaúcha Tatiana Rodrigues teve uma conjuntivite. Sua mãe agendou a consulta com um oftalmologista que era (elas não sabiam) iridólogo, ou seja, quem estuda a íris para detectar o que vai mal no corpo. Durante o exame, Rodrigues ouviu perguntas inesperadas. “E esse intestino?” Sim, ela tinha constipação desde criança. “E esse pulso?” Sim, ela tinha tendinite. Surpresa, saiu do consultório com a receita de um colírio e uma lista dos itens que deveria cortar da alimentação: açúcar, farinha e carne.

Disposta a seguir as orientações ao pé da letra, ela conta que não era fácil encontrar produtos ou locais que atendessem suas escolhas — tampouco pessoas com quem compartilhar informações. Rodrigues chegou aos 15 anos com 38 kg, deficiência de vitamina B12 e diagnóstico de depressão. Quando entrou na universidade, finalmente se rendeu e voltou a se alimentar sem grandes cuidados. A preocupação com a comida só retornou mais de 20 anos depois, em 2011, quando ela engravidou e decidiu adotar um estilo de vida mais saudável.

Dessa vez, no entanto, foi bem mais fácil encontrar nas prateleiras opções antes raras ou mesmo inexistentes, como chia, quinoa, linhaça e óleo de coco. Na internet, uma busca rápida exibe tanto receitas sem glúten quanto tutoriais para quem quer fazer os próprios cosméticos — batom com suco de beterraba, por exemplo. Os pães caseiros de Rodrigues (que não levam ingredientes de origem animal) despertaram tanto interesse que ela deixou o emprego como professora para se dedicar à cozinha. A relação entrealimentação, saúde, meio ambiente e cadeia produtiva estava na pauta do dia, estimulando muita gente a questionar o excesso de remédios e a segurança dos cosméticos.

A pesquisadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, especialista em história do corpo, explica que hoje temos muito mais informações sobre nós mesmos do que nossos antepassados. Sabemos nosso tipo de pele e percentual de gordura, fazemos testes para identificar alergia e intolerância a determinados itens e podemos acompanhar diariamente a oscilação de peso ou  à pressão arterial. Trata-se de um conhecimento que demanda novas abordagens, frequentemente personalizadas — o creme facial, por exemplo, precisa ser específico para as minhas necessidades. Uma individualização de que a indústria não dá conta.

Ao mesmo tempo, começamos a avaliar nosso corpo dentro de uma lógica um tanto “empresarial”, diz Santa’Anna, autora de História da Beleza no Brasil (editora Contexto). “É uma relação assim: tudo que a gente come ou usa deve servir como investimento — seja em saúde, seja em beleza. Nada pode ser gratuito.”

Mais atentos ao próprio corpo, também começamos a relacionar doenças ao consumo de certos alimentos. Isso gerou um receio em relação aos itens industrializados, geralmente ricos em açúcar, sódio, corantes e conservantes.

Uma das análises da Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) comparou 12 alimentos à venda no Brasil e na Europa e constatou que as opções encontradas aqui têm mais aditivos que as versões estrangeiras da mesma marca. “Por que o iogurte de lá tem mais polpa de fruta do que o daqui? Porque a polpa é mais cara que corante e aroma”, explica a engenheira de alimentos Priscilla Casagrande, coordenadora de alimentos da Proteste. “Aqui, como a lei é permissiva, a indústria usa muitos aditivos.” 

Por essas e outras, a recomendação do órgão é de que as pessoas sempre preparem alimentos e bebidas em casa. Uma proposta que, recentemente, passou a ser empregada também no mundo dos cosméticos. É a chamada “slow beauty”, que surgiu nos Estados Unidos e ganha força no Brasil.

O sonho do cosmético próprio

Fernanda Mallman, 37, está entre os adeptos do conceito. Seu interesse despontou em 2012, e logo ela já estava fazendo sabonetes em casa. A primeira receita veio de um livro. Outras foram aprendidas via Facebook e vídeos no YouTube. E Mallman, que se definia como a “rainha dos cremes”, viu seu arsenal ser reduzido a sabonete, desodorante, xampu sólido e condicionador — tudo caseiro. Ela acabou deixando a carreira no direito e transformou o hobby em negócio em 2014, quando criou a loja Fefa Pimenta. Muitos de seus clientes, diz, a procuram depois de passar por alguma doença. “As pesquisas sobre a relação entre cosméticos e saúde divergem muito; quando há algo dúbio, eu não uso”, afirma. Por isso, riscou de sua lista fragrâncias sintéticas, sulfactantes (“por ser poluente e impactar a vida marinha”) e parabenos, usados como conservantes.

A dermatologista Lilia Guadanhim, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, está acostumada a ouvir dúvidas quanto à segurança dos cosméticos. Sobre parabenos, ela explica que a orientação é de que a concentração não ultrapasse 25%. “Nos cosméticos, ele aparece numa concentração de 0,01% a 0,03%.” Outro elemento que costuma gerar receio, diz, é a hidroquinona, usada como clareador no Brasil, mas abandonada na Europa. “Sempre me perguntam por que não usam lá e usam aqui. É só interesse comercial. A hidroquinona é uma molécula antiga que vem sendo substituída por outras comercialmente mais interessantes. Alguns dizem que ela pode estar ligada ao câncer, mas os relatos se referem a ratos que ingeriram a substância — ou seja, não foi via pele”, ressalta Guadanhim.

Outra dúvida comum diz respeito à presença do alumínio em desodorantes e sua possível relação com o câncer de mama. “O mecanismo de ação dos antitranspirantes com cloreto de alumínio é o entupimento da saída dos ductos sudoríparos, o que não causa qualquer efeito adverso, exceto irritação em peles mais sensíveis. Esse boato surgiu porque os casos avançados de câncer de mama causam metástases para os linfonodos axilares, gerando gânglios (pequenos caroços) palpáveis nas axilas.”

Consumo consciente

A preocupação com a segurança dos cosméticos levou a equipe de Rodrigo Catharino, professor de Farmácia da Unicamp, a fazer um “raio X” de batons, esmaltes e lápis de olho. Foram detectados a presença de um corante potencialmente tóxico em esmaltes,  a ausência de um hidratante previsto no rótulo dos batons e uma alteração de pH nos lápis de olho. Mas os produtos naturais, ele explica, também não são isentos de riscos, já que não costumam passar sequer pelos testes de segurança exigidos na indústria: “Nada nos impede de fazer análises também nesses produtos para verificar o que ocorre com um ativo natural quando é processado, se ele vira algo tóxico ou não.”

Esse tipo de preocupação é mais comum entre os consumidores da Europa, diz Bruno Maletta, diretor da Consumoteca — consultoria especializada no consumidor brasileiro. “Aspectos como mão de obra escrava, origem da matéria-prima e a forma de descarte do material também são mais importantes lá do que aqui.”

“Consumo consciente é uma maneira de se colocar no mundo”, diz Fernanda Mallman, chamando a atenção para outro aspecto envolvido: “No ‘slow beauty’, vejo muitas meninas que pararam de alisar o cabelo e foram em busca de produtos naturais como forma de se aceitar mais, de questionar os padrões de beleza.” Segundo Denise Bernuzzi de Sant’Anna, é bem atual a ideia de que escolher seus alimentos e cosméticos envolve poder. “Antes, fazer a própria roupa ou xampu não tinha esse significado. Hoje, cosméticos, comida e roupas são coisas que estão de acordo com o que eu sou.”

Para Maletta, a produção caseira de cosméticos deve seguir como um comportamento de nicho — afinal, fazer o próprio sabonete ou xampu é algo que demanda tempo. Contudo, a busca por alternativas mais naturais, em harmonia com os valores do consumidor, deve crescer. E as grandes marcas já vêm reagindo a isso — um exemplo é a Lush, fabricante britânica de cosméticos naturais que expõe na embalagem o nome de quem produziu aquele item, conciliando a noção de artesanal com a produção em escala.

É claro que, por esse cuidado, cobra-se um preço. “Uma marca que se apoia nesses valores obviamente possui uma cadeia produtiva mais cara do que a das concorrentes. Ela reduz o número de fornecedores, se esforça para evitar um produto químico que facilitaria o processo de produção, e tudo isso vai impactar bastante no preço final do produto”, explica Maletta. “E nós temos uma massa de consumidores que até acham essas iniciativas legais, mas dificilmente aceitam pagar mais caro por elas.” Ou seja, ainda é preciso descobrir como fechar essa conta.

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